Reforma Administrativa: o discurso dos privilégios e a prática do desmonte
O editorial do jornal O Estado de S. Paulo do domingo (9) repercute uma pesquisa do Instituto Atlas Intel em parceria com o Instituto República, que aponta os supostos “anseios” dos brasileiros em relação à reforma administrativa. O texto abre uma série de camadas que precisam ser devidamente analisadas.
A primeira delas revela que a pesquisa comprova o profundo desconhecimento da população sobre o verdadeiro objetivo da PEC 38/2025. Embora seja apresentada pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), como uma proposta para combater privilégios no serviço público, a reforma não enfrenta os setores onde esses privilégios de fato existem.
É necessário, antes de qualquer debate, esclarecer: a imensa maioria dos servidores públicos não recebe altos salários, não tem 60 dias de férias e tampouco se aposenta compulsoriamente com prerrogativas especiais. Esses benefícios são restritos a uma pequena elite de carreiras no Judiciário e no Legislativo.
A narrativa de combate aos privilégios serve, portanto, como cortina de fumaça. No conteúdo, o que a reforma promove é a redução do investimento do Estado para manter a máquina de pagamento de juros da dívida pública, manter o orçamento secreto com as chamadas emendas parlamentares e continuar garantindo isenções e benefícios fiscais para grandes grupos econômicos.
Outro ponto levantado pela pesquisa evidencia uma contradição central. O povo brasileiro deseja ampliar a qualidade dos serviços públicos, mas, ao mesmo tempo, defende a redução do Estado. São expectativas conflitantes, já que não há como oferecer educação, saúde, assistência social, proteção ambiental e segurança com menos servidores, menos orçamento e mais precarização.
Ou seja, o que está em jogo não é apenas a vida funcional dos servidores, mas o futuro dos direitos garantidos à população. Uma reforma administrativa construída pela Faria Lima, sem diálogo com o conjunto da sociedade e as entidades representativas do funcionalismo, sob argumentos distorcidos e interesses econômicos ocultos, coloca em risco a estrutura que assegura que o Estado esteja presente onde o mercado não quer estar.
Em vez de desmontar o serviço público, o Brasil precisa de um projeto que o fortaleça, com a valorização dos trabalhadores e expansão da capacidade de atendimento. Os brasileiros merecem saber com transparência o que está sendo decidido em seu nome. A luta não é corporativa, é pela garantia de que os direitos que hoje existem não se tornem privilégios de poucos amanhã.

