Independência do Banco Central: Um Fator de Crescimento da Desigualdade?

A independência do banco central pode ter efeitos variados dependendo do contexto institucional e do desenvolvimento financeiro de cada país

1.      A independência do Banco Central pode vir com um custo social significativo. À medida que o banco central persegue a estabilidade econômica, a desigualdade pode crescer, criando uma situação em que a liberdade financeira amplificada contribui para a disparidade.

2.      Sobre esse debate, o Banco Central do Brasil (BCB) publicou, recentemente, o estudo “How Does Central Bank Independence Influence the Relationship Between Inflation, Income Inequality and Poverty?[1], que examina como a independência do banco central afeta a relação entre inflação, desigualdade de renda e pobreza. O estudo investiga essa influência utilizando um conjunto abrangente de dados de 46 países entre 1980 e 2022.

3.      Entre os principais achados, destacam-se que a independência do Banco Central poderia, por via indireta: 1) mitigar os efeitos adversos da inflação na desigualdade de renda; 2) fomentar uma distribuição de renda mais equitativa; 3) reduzir a incidência de pobreza, principalmente devido à maior estabilidade macroeconômica e controle da inflação.

4.      Ocorre que estudos dessa natureza apresentam uma série de limitações. A estratégia de identificação do estudo utiliza uma abordagem de dados em painel com o Método Generalizado de Momentos (Sys-GMM) para lidar com a endogeneidade. No entanto, a escolha dos instrumentos e a validade dessa abordagem podem ser questionadas. Ademais, a estratégia de identificação pode estar sujeita a problemas de viés de especificação e escolha inadequada de instrumentos. Se os instrumentos não forem verdadeiramente exógenos, os resultados podem ser enviesados.

5.      Quanto às possíveis limitações dos resultados desse estudo, pode-se elencar os seguintes aspectos:

  1. a causalidade reversa é uma preocupação significativa. A dificuldade de estabelecer uma relação causal clara entre a independência do banco central e a desigualdade de renda ou pobreza é um ponto fraco;
  2. a heterogeneidade entre países em termos de desenvolvimento econômico, instituições e políticas fiscais pode afetar os resultados. O impacto da independência do banco central pode variar significativamente entre diferentes contextos institucionais;
  3. a escolha das medidas de desigualdade pode influenciar os resultados. Diferentes índices e métricas podem levar a conclusões distintas ou opostas;
  4. outros fatores econômicos e sociais não considerados no estudo podem estar influenciando os resultados. Por exemplo, políticas fiscais, programas sociais e outras intervenções governamentais podem ter um impacto significativo na desigualdade e pobreza;
  5. a relação entre a independência do Banco Central, a inflação, a desigualdade de renda e a pobreza pode não ser linear, podendo resultar na inversão dos sinais dos coeficientes estimados.

6.      Ao examinar a fragilidade dos estudos que utilizam dados altamente agregados é importante notar que fatores confundidores podem estar ligados simultaneamente às variáveis independente e dependente. A presença desses elementos pode introduzir viés nos resultados, criando a ilusão de uma relação direta entre as variáveis de interesse, quando, na verdade, essa relação é influenciada pelos fatores de confusão. Em outras palavras, esses fatores podem distorcer ou confundir a verdadeira relação entre as variáveis, levando a conclusões errôneas e resultados espúrios.

7.      Para melhor esclarecer os argumentos apresentados no parágrafo anterior, vamos examinar uma perspectiva alternativa. O estudo “Does Central Bank Independence Increase Inequality?[2] do Banco Mundial (The World Bank, Policy Research Working Paper n. 9522) investiga se a independência do banco central tem um impacto significativo na desigualdade de renda e riqueza em diferentes países.

8.      Os principais achados deste estudo sugerem que:

a) há evidências de que a independência do banco central está associada a uma redução na desigualdade de renda apenas em países com altos níveis de desenvolvimento financeiro;

b) a independência do banco central pode contribuir para a estabilidade macroeconômica, reduzindo a inflação e promovendo um ambiente econômico mais previsível, mas essa estabilidade pode não se traduzir diretamente em benefícios para a distribuição de renda e riqueza.

9.      Na visão dos pesquisadores do Banco Mundial, embora a independência do banco central possa eventualmente trazer alguns benefícios macroeconômicos, é importante considerar políticas complementares que promovam a inclusão financeira e a equidade social. Dessa forma, a coordenação entre políticas monetárias e fiscais é crucial para mitigar os efeitos negativos da independência do banco central na distribuição desigual da riqueza.

10.    Portanto, esses achados destacam a complexidade da relação entre a independência do banco central e a desigualdade econômica, sugerindo que a independência do banco central pode ter efeitos variados dependendo do contexto institucional e do desenvolvimento financeiro de cada país. A heterogeneidade dos ambientes institucionais entre os países pode afetar os resultados dos estudos. Portanto, as diferenças nas estruturas políticas, econômicas e sociais podem influenciar a eficácia da independência do banco central.

11.    Considerando os argumentos discutidos, observa-se que:

  1. A heterogeneidade dos ambientes institucionais entre os países pode afetar os resultados dos estudos. As diferenças nas estruturas políticas, econômicas e sociais podem influenciar a eficácia da independência do banco central. Consequentemente, a independência do banco central pode ter efeitos diferentes em países desenvolvidos e em desenvolvimento, devido às variações nas instituições financeiras e na governança.
  2. A agregação de dados pode mascarar variações importantes entre diferentes grupos dentro de um país. Estudos que utilizam dados agregados podem não capturar as nuances das desigualdades regionais ou setoriais. Assim, a análise de dados nacionais pode não refletir as desigualdades específicas entre áreas urbanas e rurais ou entre diferentes setores econômicos.
  3. A causalidade reversa é uma preocupação significativa. É difícil determinar se a independência do banco central causa a redução da desigualdade ou se países com menor desigualdade são mais propensos a adotar bancos centrais independentes. Essa é uma hipótese mais provável! Logo, países, com instituições mais fortes e menor desigualdade socioeconômica, podem ser mais propensos a implementar políticas de independência do banco central, o que complica a identificação de uma relação causal clara.
  4. Embora o discurso liberal ainda prevaleça no Brasil, após cerca de 40 anos de crescente globalização e financeirização nas economias ocidentais, a realidade mostra que a desigualdade de renda aumentou em vários países.
  5. Os dados mostram que, nos países onde se implementou a independência dos bancos centrais, houve um aumento na concentração de renda nas últimas quatro décadas, beneficiando significativamente os super ricos, especialmente nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Índice de Palma: Razão entre a renda dos 10% mais ricos e os 40% mais pobres

País/Região1980 (A)2000 (B)2022 (C)Variação (C/A)
Estados Unidos2,564,528,29223,8%
Japão2,743,693,9243,1%
Reino Unido1,922,732,5634,7%
União Europeia2,282,283,0835,1%

Fonte: World Bank Open Data

Participação na renda nacional: 1% mais ricos

País/Região1980 (A)2000 (B)2022 (C)Variação (C/A)
Estados Unidos10,4217,3420,7398,94%
Japão10,5011,1512,6520,47%
Reino Unido7,1711,6313,1082,70%
União Europeia8,2111,112,3250,10%

Fonte: World Bank: World Inequality Database

  • Esse processo tem fragilizado as relações de trabalho, fomentado fraturas sociais e desagregação política, resultando em disrupturas econômicas em nível mundial que já estão em andamento.
  • A independência do banco central limita indiretamente a política fiscal, enfraquecendo a capacidade dos governos de implementar políticas de redistribuição de renda social, regional e setorial.
  • A independência do banco central incentiva os governos a desregulamentar os mercados financeiros, resultando na valorização dos ativos financeiros. Esses ativos estão predominantemente nas mãos dos segmentos mais ricos da população, o que aprofunda a concentração de renda e riqueza.
  • Para conter as pressões inflacionárias, bancos centrais independentes aumentam a pressão sobre a dívida pública, o que leva os governos a implementar políticas que enfraquecem o poder de barganha dos trabalhadores.
  • Além disso, a independência do banco central limita a capacidade financeira dos governos nacionais para fornecer serviços de infraestrutura e apoiar políticas industriais ativas, comprometendo o crescimento econômico e a criação de empregos de alta qualidade.
  • A relação entre independência do BC, inflação, desigualdade de renda e pobreza pode não seguir um padrão linear simples. Ou seja, a influência da independência do BC pode variar dependendo do nível de independência, do contexto econômico e de outros fatores. Um aumento incremental na independência do BC pode ter efeitos diferentes em diferentes faixas de independência;
  • Embora o estudo do Banco Mundial esteja incluído nas referências bibliográficas do artigo científico do Banco Central do Brasil, por razões não explicadas, na revisão de literatura são omitidos os achados e principais destaques desse relevante estudo que aponta em direção contrária aos resultados esperados por seu autor, o que pode sugerir um conflito de ideias ou, possivelmente, uma escolha editorial criticável.

Sumário Conclusivo:

12.    Considerando os argumentos discutidos, observa-se que a eficácia da independência do banco central pode variar significativamente entre países devido à heterogeneidade dos ambientes institucionais, estruturas políticas, econômicas e sociais. A agregação de dados pode mascarar variações regionais e setoriais importantes, enquanto a causalidade reversa dificulta a identificação de uma relação clara entre independência do banco central e desigualdade. Além disso, apesar do discurso liberal prevalente, a globalização e financeirização têm aumentado a desigualdade de renda, fragilizado as relações de trabalho e fomentado fraturas sociais e políticas. A independência do banco central também limita a política fiscal e incentiva a desregulamentação dos mercados financeiros, aprofundando a concentração de renda e riqueza. Para conter a inflação, bancos centrais independentes aumentam a pressão sobre a dívida pública, limitando a capacidade dos governos de fornecer serviços de infraestrutura e apoiar políticas industriais ativas. Por fim, omissões de estudos relevantes na revisão de literatura sugerem possíveis conflitos de ideias ou escolhas editoriais criticáveis.

Seção Sindical do SINDSEP-DF no Banco Central – 11 de março de 2025


[1] Fonte: https://www.bcb.gov.br/content/publicacoes/WorkingPaperSeries/WP615.pdf

[2] https://documents1.worldbank.org/curated/en/422091611242015974/pdf/Does-Central-Bank-Independence-Increase-Inequality.pdf

print
Compartilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *