A prisão de Bolsonaro: entre justiça e pesar

Por Oton Pereira Neves*

A prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro marca um momento histórico para a democracia brasileira. Por um lado, há uma sensação de justiça, de que finalmente há consequências concretas para os ataques ao Estado democrático de direito e o crime cometido contra o povo durante a pandemia de Covid-19. Por outro, existe um sentimento profundo de tristeza: como alguém tão controverso, que institucionaliza a retórica autoritária, que menospreza instituições democráticas, ataca os serviços públicos e os servidores, e incentiva tensões políticas, pôde ocupar a presidência do país?

Sua trajetória deixou um rastro de divisão, sofrimento e retrocessos. A prisão, mesmo que preventiva, pode trazer alívio, mas também desperta a lembrança de anos perdidos, de valores abalados, de uma democracia testada ao limite.

É doloroso reconhecer que o Brasil permitiu que Bolsonaro ascendesse ao poder, fruto da desinformação e da polarização do país provocadas pelo capital. A ascensão da extrema-direita em parte do mundo é reflexo direto da luta de classes.

No Brasil, esse movimento ganhou força crescente a partir do golpe que culminou com o impeachment da presidenta legitimamente eleita Dilma Rousseff, seguida da prisão arbitrária e injusta de Lula, que serviram aos interesses da classe dominante, da elite brasileira e do capital financeiro. Mesmo movimento que hoje tenta a todo custo aprovar uma reforma administrativa que transforma o Estado em balcão de negócios ao mesmo tempo que reduz os serviços públicos tão necessários ao povo brasileiro. Tudo em nome do lucro!

Mais do que uma punição individual, a prisão de Bolsonaro é simbólica: é uma barreira levantada contra o autoritarismo, contra a ideia de que o poder pode se perpetuar fora das regras constitucionais. Representa um momento de reafirmação, de que há limites para o discurso de poder, de que a tentativa de ruptura democrática não passou impune.

É também uma oportunidade para reflexão: não basta punir, é preciso reconstruir. Educar, fortalecer os serviços públicos, garantir que a cidadania e o respeito à diversidade prevaleçam. Caso contrário, a história pode se repetir. Manter a democracia exige vigilância, participação cidadã e compromisso permanente.

*Sindicalista, secretário-geral do Sindsep-DF Gestão 2025/2028, servidor aposentado do Ministério da Saúde

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