50 anos da Revolução dos Cravos: o colapso do salazarismo e as guerras coloniais na África
Por Luís Henrique
Em 25 de abril, comemoramos o fim de uma das mais longas e cruéis ditaduras do século XX: o salazarismo português, que durante quase cinco décadas oprimiu e sufocou não apenas Portugal, mas também as colônias portuguesas remanescentes: Angola, Moçambique, Guiné e Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e Macau[1]. Nas colônias africanas, Portugal sustentou durante uma década, uma guerra intensamente destrutiva contra os movimentos de independência. É esse o assunto deste artigo, que visa comemorar o fim da ditadura salazarista e da dominação colonial portuguesa no continente africano.
O fim do salazarismo foi diretamente determinado pelas guerras coloniais[2]. O esforço econômico necessário para enfrentar militarmente os movimentos pela independência, especialmente de Angola e Moçambique, desgastou o regime até sua queda. Mas é importante notar que a impossibilidade de bancar economicamente essas guerras tem raízes na natureza do regime. A guerra exige um grau de mobilização ideológica da população que o salazarismo não podia prover. O excepcionalismo[3] português, ancorado no passado colonial e na suposta missão cristianizadora das suas armas, era insuficiente para contrastar a realidade brutal da guerra moderna – enquanto, por outro lado, seu imobilismo econômico, fundado no receio do crescimento do proletariado, dificultava enormemente o financiamento das guerras. O apatismo social salazarista, no seu todo, era incompatível com um militarismo ativo e um intervencionismo consistente no exterior.
Na impossibilidade econômica e política de uma vitória militar, e na inviabilidade ideológica da sustentação de uma guerra prolongada, o projeto excepcionalista de cristianização da África Portuguesa estava destinado ao fracasso. Ironicamente, a convivência diária com o desastre militar permanente inverteu os papéis. Os oficiais e soldados portugueses não eram padres, e os padres portugueses eram insuficientes e incapazes de estabelecer uma base social nas classes dominantes locais[4]. A doutrina social da igreja tentou remediar isso através da criação de uma Igreja Católica local, nos moldes das europeias, o que implicou no esforço de formação de padres e freiras africanos. Ora, essa estrutura, por mais eurocêntrica que fosse, não tinha como criar uma clientela a não ser entre as massas oprimidas pelo colonialismo português, o que acarretou uma grande penetração da Teologia da Libertação.
Além disso, nessas circunstâncias, o catolicismo catequista teve que rivalizar com outras influências ideológicas, das quais a mais importante na guerra colonial foi o “marxismo” simplificado e nacionalista dos movimentos de libertação, que se expandiu inicialmente através das inciativas do Partido Comunista Português, desbordando daí para o trabalho de base entre a população autóctone. No caso de Angola, o exílio de parte da liderança para a França, em 1957, devido ao recrudescimento da repressão colonialista, fortaleceu os laços e convicções marxistas do movimento.
Com a situação cada vez mais insustentável do esforço militar colonialista português, o que ocorreu foi que, em vez da cristianização dos povos africanos, o que ocorreu foi a radicalização da baixa oficialidade militar portuguesa. Sem um suporte ideológico forte, capaz de sustentar o moral das tropas, foi o “marxismo” africano que conquistou os tenentes e capitães portugueses; os “civilizadores” foram “civilizados” – a África trouxe Portugal, à força, para o século XX, para o mundo moderno, e essa foi parte, ainda que pequena, do “fardo do homem negro”[5].
[1] Goa, Damão e Diu, Nagar Aveli e Dardrá, colônias portuguesas na Índia, foram libertadas pelo exército indiano em 1961, pondo fim à dominação salazarista.
[2] Estas são as guerras de independência de Moçambique, Angola, Guiné e Cabo Verde.
[3] Excepcionalismo é a ideia segundo a qual um determinado país tem uma missão histórica única, que o coloca acima dos demais.
[4] Nunes, Frei José, As missões cristãs nas colónias portuguesas de África – submissão e resistência ao Colonialismo durante o Estado Novo. In Sete Margens, 02/08/1999. https://setemargens.com/as-missoes-cristas-nas-colonias-portuguesas-de-africa-submissao-e-resistencia-ao-colonialismo-durante-o-estado-novo/
[5] O “fardo do homem branco”, na ideologia colonialista europeia, seria a suposta obrigação dos povos europeus, “brancos” de civilizarem e cristianizarem os demais continentes. A exploração brutal dos povos

