Especialistas apontam riscos da Indústria 4.0 para a classe trabalhadora

Especialistas apontam riscos da Indústria 4.0 para a classe trabalhadora

Desenvolvida para gerar um novo salto tecnológico no mundo produtivo, a partir do crescimento exponencial das novas tecnologias de informação e comunicação, a Indústria 4.0 pode ser “devastadora para a classe trabalhadora”. A afirmação é do professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Ricardo Antunes, em audiência pública promovida pela Comissão do Trabalho, Administração e Serviços Públicos (Ctasp) da Câmara dos Deputados, nessa terça-feira (10). A atividade foi de iniciativa do deputado Carlos Veras (PT-PE).

Segundo o professor, a Indústria 4.0 atua intensificação dos processos produtivos automatizados em toda a cadeia produtiva geradora de valor, como indústrias, serviços, agricultura, agroindústria, “de modo que a produção e a logística empresarial sejam controladas e comandadas digitalmente em todos os espaços onde isso for possível, e economicamente vantajoso para os capitais”. Um dos exemplos apontados por Antunes foi a Uber, crescentemente utilizada no Brasil como “alternativa” ao desemprego e flagrantemente geradora de precarização das relações de trabalho. “A plataforma se apropria da força de trabalho gerada pelos serviços dos motoristas sem que se contemple os deveres trabalhistas vigentes nos países onde a plataforma opera”, denunciou.

Para o presidente da CUT Brasília, o problema não está no avanço tecnológico, mas na forma como essa tecnologia é utilizada. “Utilizamos a tecnologia para garantir mais qualidade de vida aos trabalhadores ou utilizamos a tecnologia para garantir mais lucratividade ao grande capital?”, questionou. Segundo ele, é importante que “nós, enquanto classe, uma vez que somos oprimidos, estejamos disputando a consciência crítica do conjunto da sociedade para, enquanto povo, reajamos a toda essa exploração e medidas autoritárias e nefastas que estão usurpando nossos direitos e levando a população brasileira para a miséria”.

Já o secretário de Administração e Finanças da CUT Brasília, Julimar Roberto, avalia que o “Estado tem que ser protagonista nesse cenário”. “Ele (o Estado) deve ter o compromisso de regular as novas tecnologias, para que ela seja benéfica para os trabalhadores, contribua par ao desenvolvimento social e estimule distribuição de renda”, afirma Roberto, que também é presidente da Contracs.

Escravidão digital

Outro ponto abordado pelo pelo professor Ricardo Antunes diz respeito a “zero hour contract”, ou seja, “contrato de zero hora”. Segundo ele, é uma modalidade de trabalho com enorme crescimento global e que se estrutura a partir de um amplo contingente de trabalhadores e trabalhadoras das mais diversas atividades que ficam à disposição de uma plataforma. “Vou me ater às grandes plataformas que são para mim, a forma prévia da Indústria 4.0. Eles (trabalhadores) ficam esperando uma chamada, e quando a recebem, ganham estritamente pelo que fizeram, nada percebendo pelo tempo que ficaram à espera da solicitação. Se eu fico dois dias esperando uma chamada e não vem chamada nenhuma, eu sou um escravo à disposição do meu senhor que é o equipamento digital”, lamentou.

Divisão do trabalho

O representante do Dieese Max Leno de Almeida chamou a atenção para a presença da divisão internacional do trabalho no contexto da Indústria 4.0. “Cada vez mais empresas estão procurando lugares onde a produção seja efetuada a custo cada vez menores. Conceito advindo justamente desse desdobramento da globalização de fato, no âmbito das próprias empresas, e de própria produção contemporânea.”Ele destacou o papel dos sindicatos nesse processo. “Os sindicatos têm que ser preservados do ponto de vista da sua atuação social, mas alguns ingredientes novos acabam surgindo de tal maneira que eles intensifiquem ainda mais sua relevância social que é entender tudo isso que está acontecendo, de que maneira ele vai ser representado dentro desse processo”, apontou o representante do Dieese.

Assista aqui a íntegra da audiência aqui

Fonte: CUT Brasília e Agência PT na Câmara | Foto: Gustavo Bezerra

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